Quinta-feira, Dezembro 02, 2010

O estranho (?)

Estava eu aqui cansada da rotina nossa de cada dia que me rouba as coisas que aprecio e resolvi enfrentá-la...
Há tempos ela me rouba o prazer geminiano de escrever, por mais idéias que eu tenha, por mais frases prontas que me venham, por mais indignações que se desenhem, por mais críticas que eu tenha a fazer, ultimamente tenho preferido deitar. E ruminar minhas histórias. As que vivi e as que desejei. As que desejo. Fico ali. Sozinha. Na inércia.
Isso enlouquece.
Pior, isso empobrece.
Isso é normal (?)
Isso é adequar-se.
É não querer mais gritar.
É ficar quieto porque isso faz de tudo mais fácil. Clichê?
Claro. Pra que diabos mais poderia eu voltar aqui, senão pra falar do sentimento asqueroso, doentio, cômodo e asfixiante que assola todos nós? Um que eu não sei denominar!
Mas é um que mostra não ser possível, nunca, fazer nada contra tudo nem contra qualquer coisa que sempre acontece?
Que diz que somos pequenos e inertes mesmo contra o vizinho que põe fogo no lixo dele todo dia, incomodando pelo menos 10 pessoas?
Até ele ganha sua incapacidade de ação em cada dia.
Porque afinal, você trabalhou demais e tem problemas pessoais demais na sua cabeça. Tantos que até eles são algozes da sua atividade, roubam sua energia mental, esgotando cada músculo seu, provocando sua incapacidade para qualquer resolução.
TV,
Sofá,
Cama,
Telefone... "Oi! Tudo bem contigo?" "Tudo e você?" "Ah, legal. levando a vida."
Todo mundo vai levando a vida, estável e indiferente.
IN-DIFERENTE --> Não diferente --> Tudo igual.
sobre o que mesmo eu iria escrever?
Sobre o igual. O estranho normal que me consome.
E a inércia da vida é tão grande que ela pode ser observada em vários âmbitos das vivências humanas.
Veja bem, hoje você certamente procura:
Estabilidade financeira;
Estabilidade emocional;
Estabilidade social (bons amigos).
Basicamente, estabilidade traz felicidade. E eu não tô duvidando ainda, só constatando. Mas devo admitir que a tristeza que sinto ao escrever essa assertiva me leva a crer que voltarei a pensar nisso.
Enfim, a busca de estabilidade, ela extrapola o seu círculo pessoal. Ela invade a sociedade, o Estado, o mundo:
Estabilidade econômica;
Estabilidade previdenciária;
Estabilidade carcerária;
Estabilidade no Rio de Janeiro (não ia perder essa).

E qual o problema com a estabilidade, Roses?
Com a estabilidade porra nenhuma até agora. Só com duas consequenciazinhas dela, uma que me devora e uma que me emputece (às vezes, comigo mesma!):

ROTINA: pra ser estável, tem que ser mais ou menos igual. Tem que cumprir regras. Tem curso a seguir. Tem que ser previsível. Passível de controle.

IMEDIATISMO: Todo mundo quer estabilidade pra ontem. Todo mundo tenta acertar no primeiro tiro. Todo mundo quer construir um prédio de dez andares em duas semanas com 6 horas de trabalho por dia e folga no fim de semana. Todo mundo quer acreditar que o problema emblemático do Rio acabou em um domingo e que de agora em diante, tá tudo certo.

Depois que eu acredito que deu certo, é só seguir a inércia, pagar as contas, ser gente grande, assistir TV, espalhar minha genialidade no twitter e me sentir amada no facebook (já que o orkut perdeu sua estabilidade) pra que a vida pareça ter algum sentido mais nobre com a minha participação na construção do não ser do mundo ou de seu ser inerte.
Afinal, os dias estão passando tão depressa.
Daqui a pouco chega o fim de 2011 e eu me sinto instigada a passar por aqui de novo, melancólica como só o fim do ano me deixa.

"Periga nunca se encontrar

Será que ele vai perceber?
Que foge sempre do lugar
Deixando o ódio se esconder

Faz parte desse jogo
Dizer ao mundo todo
Que só conhece o seu quinhão ruim
É simples desse jeito
Quando se encolhe o peito
E finge não haver competição


É a solução de quem não quer
Perder aquilo que já tem
E fecha a mão pro que há de vir."

Marcelo Camelo

4 ovulações absurdas:

Comentador Fiel disse...

E é bom aproveitar o final de 2011, já que o final de 2012 não existirá.

felipemaia disse...

Muito a se comentar!

Estabilidade é uma merda. A vida é constante. A estabilidade é pra tentar diminuir um medo constante e persistente do não ter nada quando precisar, de uma ajuda, de uma Âncora.

Eu morro de medo. Mas queria tanto ser livre, mas a humanidade já descobriu que nunca foi livre, então sonhar em ser livre é só um sonho, vamos ter que nos prender a esses grilhões da estabilidade e seguir a vida porcamente, falsamente e tristemente.

Com a literatura podemos experiencia e soudosamente falar de um tempo qu enão vivemos; d euma realidade que não nos pertence. O sonho sempre será um sonho e nós sempre seremos os sonhadores!

:D

Norma Lúcia* disse...

nossa, seu texto é fantástico!! Me sinto exatamente dessa forma no momento! Bem, seu blog é fantástico, voltarei aqui mais vezes!!
Quando puder, me faz uma visitinha pra conhecer o meu blog, viu?
http://passandoprarir.blogspot.com/
beijocas.

Polly Ana disse...

Loiro, que linda sua explanação citando a literatura....

Olha, eu discordo um pouco de vcs, até porque estou bem com a minha busca de estabilidade. Acho que certas certezas,mesmo que inventadas, fazem bem a gente. Precisamos de solidez em algumas coisas. A estabilidade traz constância e paz e não necessariamente está ligada à rotina. Ou melhor, quem disse que a rotina é algo ruim?

Ps:. Norma Lúcia seja muito bem- vinda aqui!